Chernobyl: o desastre nuclear de 1986 ainda não acabou
Em 26 de abril de 1986, uma explosão na usina de Chernobyl mudou para sempre a história da energia nuclear. Quarenta anos depois, os destroços do reator continuam exigindo cuidados, e novos acontecimentos colocaram a segurança do local novamente em discussão.
Na madrugada de 26 de abril de 1986, enquanto milhares de pessoas dormiam na cidade soviética de Pripyat, uma sequência de acontecimentos dentro de uma usina nuclear provocou uma das maiores catástrofes tecnológicas da humanidade.
O reator número 4 da usina de Chernobyl explodiu durante um teste de segurança, lançando materiais radioativos na atmosfera. Nos dias seguintes, a contaminação ultrapassaria as fronteiras da atual Ucrânia e atingiria outras regiões da Europa.
Mas existe uma parte dessa história que muitas pessoas desconhecem: Chernobyl não deixou de ser um problema quando as chamas foram apagadas.
Em 2025, um drone atingiu a estrutura construída para proteger os restos do reator destruído. O episódio comprometeu funções importantes de segurança e tornou necessárias novas obras de recuperação, décadas depois da tragédia original.
Para entender por que Chernobyl ainda preocupa o mundo, é preciso voltar àquela madrugada de abril.
O que aconteceu em Chernobyl em 26 de abril de 1986?
A usina nuclear de Chernobyl ficava no território da então República Socialista Soviética da Ucrânia, integrante da União Soviética, a poucos quilômetros da cidade de Pripyat.
Na noite de 25 para 26 de abril de 1986, operadores do reator número 4 preparavam um teste que deveria ajudar a tornar a instalação mais segura.
O objetivo era verificar se, em caso de interrupção no fornecimento de energia, a inércia das turbinas conseguiria manter temporariamente a eletricidade necessária a determinados sistemas, até a entrada em funcionamento dos geradores de emergência.
A ideia parecia simples. A execução, porém, aconteceu em condições perigosas.
Durante a preparação, o reator passou a operar em um estado instável. Uma combinação de decisões operacionais, falhas de projeto e deficiências nos sistemas de segurança criou as condições para o desastre.
Por volta de 1h23 da madrugada de 26 de abril, uma elevação súbita e extrema da potência provocou a destruição do reator.
Explosões romperam sua estrutura, expondo o núcleo e lançando materiais radioativos no ambiente.
Não se tratou de uma explosão nuclear como a de uma bomba atômica. O acidente envolveu um aumento descontrolado de potência, explosões e incêndios que liberaram grandes quantidades de substâncias radioativas.
O que deveria ser um teste de segurança havia se transformado no pior acidente da história da indústria nuclear.

Por que o reator de Chernobyl explodiu?
Durante muito tempo, a explicação pública sobre o desastre concentrou grande parte da responsabilidade nos operadores da usina.
Investigações posteriores revelaram um cenário mais complexo.
O reator de Chernobyl era do tipo RBMK-1000, um modelo soviético que apresentava características perigosas em determinadas condições de funcionamento.
Entre os problemas estavam a possibilidade de aumento da reatividade durante a formação de vapor no sistema de resfriamento e falhas no projeto das barras utilizadas para controlar a reação nuclear.
Em determinadas circunstâncias, até mesmo o acionamento do sistema de desligamento de emergência poderia provocar, inicialmente, um aumento localizado da potência.
Esses problemas foram agravados por procedimentos inadequados, informações insuficientes e uma cultura de segurança que não tratava devidamente os riscos conhecidos.
Chernobyl não foi consequência de um único erro. Foi o resultado de uma combinação de falhas técnicas, humanas e institucionais.
Pripyat: a cidade que não sabia do perigo
Enquanto trabalhadores e bombeiros tentavam controlar a situação na usina, a vida seguia na cidade vizinha de Pripyat.
Construída para abrigar profissionais da instalação nuclear e suas famílias, Pripyat tinha aproximadamente 49 mil habitantes. Era uma cidade jovem, planejada, com escolas, edifícios residenciais, espaços culturais e parques.
Na manhã de 26 de abril, muitos moradores ainda desconheciam a verdadeira dimensão do acidente.
O perigo estava no ar, mas não podia ser percebido pelos sentidos. A radiação não tem cheiro, cor ou sabor.
Enquanto isso, partículas radioativas se espalhavam pelo ambiente. A exposição poderia acontecer pela inalação, pelo contato com materiais contaminados e pelo consumo de alimentos atingidos pela radiação.
A população de Pripyat só começou a ser evacuada na tarde de 27 de abril de 1986, aproximadamente 36 horas depois da explosão.
Centenas de ônibus foram mobilizados para retirar os moradores. Muitos saíram levando documentos, roupas e alguns objetos pessoais, acreditando que a ausência seria temporária.
Para a maioria, aquela foi uma despedida definitiva.
Pripyat se tornaria um dos símbolos mais conhecidos do desastre: uma cidade inteira esvaziada por uma ameaça invisível.

Os liquidadores: quem enfrentou a radiação após a explosão?
A explosão foi apenas o início da emergência.
Era necessário apagar incêndios, retirar destroços contaminados, descontaminar áreas, construir estruturas de proteção e tentar impedir que a tragédia se agravasse.
Essa missão mobilizou bombeiros, soldados, engenheiros, trabalhadores da construção civil, técnicos e especialistas de diferentes áreas.
Eles ficaram conhecidos como liquidadores de Chernobyl.
Ao longo dos anos seguintes, centenas de milhares de pessoas participaram das operações de resposta e recuperação. Aproximadamente 600 mil a 800 mil foram registradas em atividades relacionadas às consequências do acidente, embora nem todas tenham realizado tarefas com o mesmo nível de exposição.
Alguns trabalharam próximos ao reator destruído, em condições extremamente perigosas. Outros atuaram na limpeza, na logística, no monitoramento e na recuperação de territórios contaminados.
Uma das missões mais importantes foi a construção do primeiro grande abrigo de concreto e aço sobre os restos do reator número 4.
Concluída ainda em 1986, a estrutura ficou conhecida como sarcófago de Chernobyl.
Ela ajudou a limitar a dispersão de materiais radioativos, mas havia sido construída às pressas e não representava uma solução definitiva.

Quantas pessoas morreram no desastre de Chernobyl?
Essa é uma das perguntas mais pesquisadas sobre a tragédia, mas não existe um único número capaz de representar todas as suas consequências.
Segundo o Comitê Científico das Nações Unidas sobre os Efeitos da Radiação Atômica (UNSCEAR), 134 trabalhadores e integrantes das equipes de emergência desenvolveram síndrome aguda da radiação após receberem doses elevadas.
Desses, 28 morreram nos primeiros três meses.
Os efeitos de longo prazo são mais difíceis de quantificar. O acidente provocou aumento de casos de câncer de tireoide em pessoas expostas quando crianças ou adolescentes, especialmente em áreas atingidas pela contaminação por iodo radioativo.
Estimativas de mortes futuras relacionadas à exposição dependem de modelos epidemiológicos e dos grupos populacionais considerados. Por isso, não devem ser confundidas com mortes já confirmadas.
Além dos efeitos físicos, o desastre causou deslocamentos forçados, perdas econômicas e profundas consequências psicológicas e sociais.
O impacto de Chernobyl não pode ser medido apenas pelo número de vítimas fatais.
O que aconteceu com o reator 4 depois da explosão?
Após a construção do sarcófago original, o reator destruído permaneceu isolado, mas não deixou de exigir monitoramento e manutenção.
Dentro da estrutura continuaram existindo materiais radioativos, destroços contaminados e resíduos de combustível nuclear.
Com o passar dos anos, tornou-se evidente que o primeiro abrigo não poderia oferecer proteção suficiente por tempo indeterminado.
Foi então desenvolvido um dos maiores projetos de engenharia de contenção nuclear do mundo: o New Safe Confinement, também chamado de Novo Confinamento Seguro.
A imensa estrutura metálica em forma de arco foi posicionada sobre o antigo sarcófago em 2016 e entrou oficialmente em operação em 2019.
Projetada para uma vida útil de aproximadamente 100 anos, sua função não é fazer a radioatividade desaparecer. O objetivo é limitar a dispersão de materiais contaminados e criar condições para o futuro desmonte de estruturas instáveis, com sistemas de proteção e controle.
Embora a usina tenha encerrado definitivamente a produção de eletricidade em dezembro de 2000, as atividades de descomissionamento, gerenciamento de resíduos e segurança nuclear continuam.
Chernobyl hoje: o ataque de 2025 e os novos riscos
Em 14 de fevereiro de 2025, quase quatro décadas depois do acidente original, um drone carregado com explosivos atingiu o Novo Confinamento Seguro de Chernobyl, durante a guerra na Ucrânia.
O impacto provocou um incêndio e danificou partes importantes da cobertura de proteção.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) informou que os níveis de radiação monitorados dentro e fora da instalação permaneceram normais após o episódio. Isso significa que o ataque não provocou uma nova liberação radiológica de grande escala comparável à de 1986.
Entretanto, a ausência de uma nova catástrofe não significou ausência de consequências.
O dano comprometeu a capacidade da estrutura de manter o isolamento adequado do ambiente interno e prejudicou funções necessárias ao trabalho de desmontagem do sarcófago original.
Em 2026, começaram a avançar os esforços internacionais para planejar sua recuperação.
Em setembro daquele ano, foi firmado um contrato para a primeira etapa dos trabalhos de engenharia. Em outubro, países do G7 anunciaram um compromisso adicional de 260 milhões de euros para apoiar a restauração.
Segundo o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento, o custo total estimado dos reparos é de pelo menos 500 milhões de euros, com a meta de recuperar integralmente as funções da estrutura até 2030.
O episódio demonstrou que a proteção de Chernobyl continua dependente de manutenção, financiamento, tecnologia e estabilidade política.

Chernobyl ainda oferece perigo em 2026?
Sim, mas é importante compreender a natureza desse perigo.
Chernobyl não está prestes a repetir automaticamente a explosão de 1986. Os reatores da usina foram desligados, e o cenário atual é diferente daquele que provocou o acidente.
Os principais desafios envolvem a contenção dos materiais radioativos que permanecem no local, a conservação das estruturas, a prevenção de contaminação ambiental e a execução segura das futuras operações de desmontagem.
A radioatividade também não desaparece de uma vez.
Algumas substâncias liberadas em 1986 tinham meias-vidas relativamente curtas. Outras, como o césio-137 e o estrôncio-90, permanecem relevantes durante décadas. Há ainda materiais com períodos de decaimento muito maiores.
Isso não significa que toda a região apresente o mesmo risco. Os níveis de contaminação variam de acordo com o local, o material radioativo presente e as condições de exposição.
O perigo existe, mas precisa ser compreendido a partir de medições científicas, e não apenas de imagens assustadoras.
Por que Chernobyl ainda não acabou?
Quatro décadas depois da explosão, Chernobyl permanece como uma demonstração de que as consequências de um acidente nuclear podem atravessar gerações.
A cidade de Pripyat continua marcada pelo abandono. O reator número 4 ainda abriga materiais radioativos que exigem proteção. E uma estrutura construída para garantir segurança por um século precisará passar por uma grande recuperação depois dos danos sofridos em 2025.
O desastre também transformou a maneira como o mundo discute os riscos da energia nuclear, a transparência das autoridades e a importância dos sistemas de proteção.
A história começou com um teste que deveria tornar uma usina mais segura.
Quarenta anos depois, o trabalho para administrar suas consequências ainda está em andamento.
Chernobyl não é apenas uma tragédia de 1986. É uma responsabilidade que continua no presente e se estende ao futuro.
Assista a seguir
A história de Chernobyl mostra como um acontecimento pode deixar consequências por gerações. Quer descobrir outras histórias surpreendentes que marcaram o mundo? Assista ao Muitos Querem Saber no YouTube .